O autodidata - de alfaiate a taxidermista
O presente esboço biográfico é uma honra, em exemplo e um estímulo de Jundiaí para o Brasil.
Santo Vendramini nasceu em Treviso, Itália, em 15 de agosto de 1885, e veio com dois anos de idade para o Brasil. Aprendeu ofício de alfaiate em São Paulo com José Carnicelli, na Rua São bento, aos quinze anos.
Montou alfaiataria própria em Jundiaí, funcionando por muitos anos.
Aos 14 anos, caçou um frango azul na Fazenda dos Queiroz Telles, em Monte Serrate. Encantado com a peça, não queria desfazer-se dela, mas não sabia como prepará-la. A imaginação, madrinha da arte, deu-lhe a solução: encheu-o de algodão e pimenta e colocou-o no forno de pão, para secar. No dia seguinte o frango, meio sapecado, estava suficientemente desidatrtado para durar, com pimenta e tudo, por bastante tempo.
Chegou a vez depois de um chupim. E a sorte de Santo é que ambas as peças têm pele dura, que facilita a preparação; fôsse uma galinha...
Procurou livros que ensinassem taxidermia, mas foi em vão. Foi ao Museu Paulista com o velho Lima, para uma explicação; nada conseguiu.
São dois fatos que bem merecem ser conhecidos, eis que se repetem constantemente pelo Brasil. Gênios de estiolam, dormindo sobre seus sonhos, sem livros, sem estímulo, sem proteção.
Desamparado, não desanimou. Continuou esfolando caças e enchendo-as de toda espécie de venenos para conservar, desde sabão de cinza até arsênico, até que encontrou seu livro!!!
Foi colecionando, até fazer suas primeiras exposições em Jundiaí, na Rua Barão; no Grêmio da Paulista (beneficente); na 1ª Festa da Uva e em Sorocaba (1927).
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| "Receita" de embalsamação de Santo Vendramini |
Quem vale, dá valor
Santo Vendramini pediu à mãe, que era florista, lhe preparasse um buquê de flores. Sobre o buquê, Santo Vendramini dispôs dois beija-flores pousados e três librando-se no ar... E os vendeu a um alemão e ficou famoso. Vendeu peças a Colégios da Capital e doou várias ao Museu Paulista, que lhe recusara iniciação.
Nisto, o Dr. Afonso d'Escaragnolle Taunay veio a Jundiaí fazer conferências. Santo Vendramini tinha preparado outra turma de colibris e, por mãos do Sr. Carlos de Sales Brock (?) os entrega em mãos, no Gabinete de Leitura Rui Barbosa, ao grande historiador. Tunay se encantou, presenteando-o com vários livros de taxidermia. Santo Vendramini progredi; levou-lhe peças para o Museu e em 1932 Taunay o chamou para preparar peças, sem compromisso de emprego, porque Santo não podia abandonar seu comerciozinho em Jundiaí.
Foi quando bateram no Horto da Paulista, no Pamplona, um gavião de penacho, gavião real, uiruçú, cutucurim, harpia, científicamente Harpia harpyja (L.), "o tipo da ave majestosa", no dizer de V. Ihering, "fácil de reconhecer à primeira vista", no dizer de Olivério Pinto.
Prontamente preparado pelo Vendramini, foi ofertado ao Museu Paulista, depois de estar exposto em sua casa, em Jundiaí. Jornais do Rio e de Jundiaí noticiaram o fato da "águia da Abissínia" abatida em Jundiaí, "spaventata dagli italiani".
Como é fértil a imaginação pseudocientífica de certas áreas!
Taunay viu a notícia, as fotos e o exemplar; chamou Santo Vendramini à capital e lhe entregou o título de colecionador, naturalista e taxidermista, com licença de caça e de pesca em todo o Brasil, recomendando-o às autoridades por onde passasse (em 1 de agosto de 1933).
Mas Vendramini, além do hobby, tinha nove filhos, fábrica de chapéus e moenda de café, e entre os quatro de balançava...
Santos e Belo Horizonte - o Instituto de Caça e Pesca
O Governo contratou-o para o Instituto em Santos. Dois dias após, porém, foi comissionado para iniciar o Museu de Belo Horizonte, tendo pesquisado material em Calado (Minas Gerais) com o botânico Rodolfo Heller. Daí foi para o Espírito Santo e Rio de Janeiro, regressando para Belo Horizonte. Volta a caiado, onde se acidentou com um tiro no braço, tratando a ferida com polenta em vez de linhaça, que não havia...
Carregado para Belo Horizonte, Israel Pinheiro o visitou na pensão, mandando interná-lo em um hospital. Vendramini ainda guardava a camisa perfurada a chumbo...
Santo voltou para São Paulo, e Israel Pinheiro insistiu para que voltasse com o ordenado "reforçado" a Belo Horizonte. Santo se recusou e retornou à Santos.
Impossibilitado de trabalhar, pediu demissão, e a levou pessoalmente à Capital, onde o Diretor, Dr. Paulo de Lima Correia, o mandou descansar, num gesto típico e nobre de Batatais, tranferindo-o para a Capital!
Reestabelecido, convidaram-no ao Museu Nacional, mas preferiu São Paulo, durante vinte anos, até se aposentar em 15 de agosto de 1955.
A serviço do Museu de Jundiaí, caçou em Mato Grosso: Aquidauana, Fazenda Rio Negro (do General Rondon), Porto Esperança, Três Lagoas, Campo Grande, etc.
Desceu o Rio Paraná, tendo estado em Porto Epitácio, três Irmãs, Guaira e no Rio Ivaí, o "paraíso das borboletas". Em Minas Gerais (no Rio das Garças) e no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, na Bahia, no Amazonas, em Goiás e até ao Museu Goeldi, no Pará.
Peças e mais peças
Enriqueceu os Museus de Belo Horizonte, na Feira de Amostras Permanente, na feira de Amostras Permanente. O Instituto de Caça e Pesca de Santos. Em São Paulo, o Departamento de Zoologia, o Parque da Água Branca, Colégios de São Paulo e doações para Itapetininga, Mogi das Cruzes, Baurú...
Calcula ter montado para mais de mil exemplares em taxidermia! Além do serviço, era responsável em São Paulo pelos espécimes vivos da Água Branca, onde voltou ainda, com oitenta e um anos, a trabalhar!
Fez mais de uma dúzia de exposições por conta do Museu de Jundiaí, no interior do Estado. Lembra-se bem de Campinas e Piracicaba, duas em Belo Horizonte e três no Rio.
Pios e Armadilhas
Parece piada, mas não é! Santo Vendramini mete-se no mato, ouve um pio, volta à casa, toma um canivete e faz o pio. Volta à mata, pia, convence os pássaros e aves, mete-lhes uma bala, desmonta-os e leva-os à coleção, dando-lhes vida na montagem, com uma diferençazinha: não piam mais. Santo Vendramini é que continua a piar, com perfeição, perto da Tovaca dissecada, que parece ouvi-lo, convencida de que é tovaca piando ali, com oitenta anos e tudo, pela boca do Vendramini.
Conhece inúmeras armadilhas, umas tradicionais, outras de sua inventiva, realmente fecunda em todo o setor; pois Santo Vendramini, quando alfaiate, fazia para o freguês, da mesma fazenda, o terno e o chapéu!
E, quando falta o fôlego, o artista ajusta um tubo de borracha ao pio, e, por meio de uma seringa de borracha, pia quanto quiser, sem se cansar. Tapeou, com esse truque, um caçador papudo (em quem não é?!) e deu muito o que fazer com seus falsos "grilos" aos lanterninhas do cinema de Jundiaí, com vinte metros de tubo, um pio na ponta e uma seringa na outra!
Digam, depois, que "nem todo Santo faz milagres" no Brasil. Em Jundiaí, fêz.
Fonte: Esse texto acima foi retirado do livro anuário do Museu de Jundiaí, pelo Pe. Antonio Maria Stafuzza, por volta do ano de 1967. Stafuzza é fundador, organizador e primeiro orientador do Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, criado pela Lei nº 406, de 10 de junho de 1955, porém só foi inaugurado em 28 de março de 1965.
Os recortes de jornal foram gentilmente cedidos pela minha Tia Nancy Zambelli, minha tia paterna, neta de Santo Vendramini, filha de Alice Vendramini Zambelli (filha de Santo) e Roberto Zambelli,
Daniela Stabile Zambelli, bisneta de Santo Vendramini.